Cinco perguntas para 'um amigo do general Freire Gomes'
Apareceu na imprensa de referência "um amigo de Freire Gomes" falando, anônimo, que não é que o general tenha sido omisso diante do golpe em curso e do qual conhecia os cabeças, o roteiro e todos os detalhes, quando era comandante do Exército. Segundo "um amigo de Freire Gomes", o general achou melhor - assim, algo proativo - lutar pela Democracia junto ao Alto Comando do Exército, em vez de denunciar a conspiração, por exemplo, ao STF. Por que fez isso? Diz o amigo que foi para não precipitar uma ruptura.
Na época do desenrolar da trama golpista, o atual comandante do Exército, general Tomás Paiva, já integrava o Alto Comando e, então, segundo a versão do general Freire Gomes, também sabia do golpe em andamento e da suposta "estratégia antirruptura" do seu antecessor. Na última quarta-feira, 14, em uma entrevista ao jornal O Globo, Tomás Paiva disse que Freire Gomes "não tinha opção que não fosse cumprir a lei''. Cabe a pergunta: o general Tomás Paiva foi pego de surpresa dias atrás com as revelações da operação Tempus Veritatis? Se não foi, ofende perguntar a quem está há um ano no comando do Exército que opção foi essa de calar? É também "cumprir a lei"?
Que fiquem estas questões para depois e deixemos agora cinco perguntas para "um amigo de Freire Gomes", sugestões para a próxima vez que alguém da imprensa de referência topar com ele por aí:
- Após as eleições, ao longo de 31 dias - entre 8 de novembro e 9 de dezembro de 2022 - e por meio do aplicativo de mensagens do Exército, Mauro Cid atualizou Freire Gomes sobre o andamento das articulações golpistas, desde o ajuste de Bolsonaro na minuta de estado de sítio até o encontro de Bolsonaro com o general Theophilo, que prometeu a Bolsonaro pôr a tropa do Comando de Operações Terrestres - a maior tropa da Força Terrestre - a serviço do golpe. Não parece coisa que se diga a quem, supostamente, fincou pé pela legalidade. Trocando em miúdos: não parece ser informação que se passe ao inimigo, ainda que um inimigo em potencial. O tenente-coronel Cid também atuou contra o golpe? Ou o general Freire Gomes fingiu adesão à conspiração?
- Quando Braga Netto chama o general Freire Gomes de "cagão", em mensagem de WhatsApp a Ailton Barros, Braga Netto diz ainda, ainda se referindo a Freire Gomes, que "omissão e indecisão não cabem a um combatente". Por que Braga Netto diz, no dia 14 de dezembro de 2022, já no adiantado da conspiração golpista - mais de cinco meses após a reunião ministerial onde o golpe foi discutido claramente -, que o general Freire Gomes padecia desse mal do combatente que é a indecisão?
- Por que o general Freire Gomes assinou, junto com os comandantes da Marinha e da Aeronáutica, a nota de apoio aos acampamentos na frente dos quartéis divulgada pelas Forças Armadas no dia 11 de novembro, nota que ajudou a impulsionar o pico dessas concentrações golpistas, registrado quatro dias depois, no feriado de 15 de novembro? Por que o general Freire Gomes omitiu essa nota do Alto Comando do Exército, ainda que o generalato tivesse se reunido no dia anterior à divulgação? O general Freire Gomes, afinal, atuava junto ao Alto Comando do Exército contra o golpe ou omitia movimentações golpistas do Alto Comando do Exército?
- Esse "ou isto ou aquilo", ou seja, o general não teria sido omisso, mas teria, isto sim, articulado contra o golpe; pôr as coisas nestes termos apriorísticos, é o que eu quero dizer, isso acaba tirando da mesa uma terceira hipótese - a pior. O general Freire Gomes participou da conspiração golpista, ou transigiu com ela, ou consentiu calando, em suas primeiras etapas - os ataques às urnas eletrônicas -, e em seu intermédio - o açulamento das manifestações golpistas na frente dos quartéis? Participou, transigiu ou consentiu calando e, na hora agá, na hora da consumação do golpe, reconsiderou, enfurecendo os golpistas renitentes?
- Por último: se o general Freire Gomes não denunciou o golpe quando o golpe estava em curso porque não queria precipitar uma ruptura, por que o general Freire Gomes não denunciou os golpistas após o golpe ter sido debelado, inclusive aqueles do Alto Comando que o general precisou convencer sobre as maravilhas da Democracia e o respeito ao resultado eleitoral?
Mas aí nem precisa de algum boneco de